agosto 01, 2005

Verissimo a pedido.

Leitores do Gávea querem um cheirinho do livro de Verissimo citado aí mais em baixo. O começo:

«Me chame de Ismael e eu não atenderei. Meu nome é Estevão. Como todos os homens, soi oitenta por cento água salgada, mas já desisti de puxar destas profundezas qualquer grande besta simbólica. Como a própria baleia, vivo de pequenos peixes de superfície, que pouco significam mas alimentam. Você talvez tenha visto alguns dos meus livros nas bancas. São aqueles livros mal impressos em papel de jornal, com capas coloridas em que uma mulher com grandes peitos de fora está sempre prestes a sofrer uma desgraça. Escrevo um livro por mês, com vários pseudônimos americanos, embora meu herói -- não sei se você notou -- sempre se chame Conrad. Conrad James. Herman Conrad. Um ex-marinheiro de poucas palavras. Um peixe pequeno, mas mais de uma cidade foi salva da catástrofe pela sua ação decisiva entre as páginas 90 e 95. Tenho uma fórmula: a grande trepada por volta da página 40, o encontro final com o vilão, e o desenlace a partir da página 90. Sobrevivo. Nunca mais vi o mar. Pensando bem, não saí mais de casa desde o meu acidente. Perdi o pé. Não quero falar disso. Tem uma mulher, Maria, claro, que vem cozinhar para mim e sempre chega com notícias da decomposição da sua família. "Minha mãe tá com a urina preta", justo quando eu estou tomando café. Tem uma moça que vem duas vezes por semana fazer a faxina mas sempre acaba na minha cama. Há dois anos que ela vem, Lília, Lília e ainda não espanou um livro. É assim que eu vivo. Exile and cunnilingus. Mas não era isso que eu queria contar.»

O Jardim do Diabo, recordo, foi o primeiro romance de L.F. Verissimo, publicado em 1988, e esta edição da Objetiva apresenta o texto revisto pelo próprio.

3 comentários:

Luís Filipe Cristóvão disse...

de-li-ci-O-so!

vanessa disse...

Sou brasileira e adorei descobrir esse blog feito por portugueses sobre a nossa linda literatura. Vou divulgar entre meus amigos.

E até pensei em fazer um blog sobre a literatura portuguesa, que eu adoro. Há pouco tempo descobri Teolinda Gersão e Lídia Jorge. Hum... vou pensar nisso com carinho.

Mais uma vez, parabéns pela iniciativa.

Anónimo disse...

Olá

Sou brasileira e vivo em Portugal há muitos anos. Gosto imenso de ter o oceano inteiro para nadar, de ter um fuso horario mentalmente activo. Fico muito feliz com a sua iniciativa de escrever sobre a literatura brasileira. Espero que volte com outro blog semelhante ao "Aviz"

um grande abraço
Leda Cruz
http://www.ledacruz.blogger.com.br
http://ledacruz.com