dezembro 03, 2005

Nova biografia de Ruy Castro: agora, Carmen Miranda




















A biografia de Carmen Miranda, por Ruy Castro (o autor de Estrela Solitária, a biografia de Garrincha, e de O Anjo Pornográfico, a de Nelson Rodrigues), aí está. A mim soa-me a grande trabalho (apesar da desconfiança do Ivan); além do mais, estive com o Ruy no dia em que ele regressou de Marco de Canavezes, a terra de Carmen Miranda (Várzea de Ovelha) e vi aquele brilho no olhar.

Ruy Castro, Carmen. (Companhia das Letras)


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Entrevista de Ruy Castro ao site da Companhia das Letras:

Carmen, o novo livro de Ruy Castro, é a maior biografia de um artista já publicada no Brasil. Ano a ano, o autor acompanha a vida da brasileira mais famosa do século XX - do nascimento da menina Maria do Carmo, numa aldeia em Portugal (e a vinda ao Rio de Janeiro, em 1909, com dez meses de idade), à consagração brasileira e internacional de Carmen Miranda e sua morte em Beverly Hills, aos 46 anos, vítima da carreira meteórica e dos muitos soníferos e estimulantes que massacraram seu organismo em pouco tempo.
Mas Carmen não é apenas uma biografia. Enquanto entrelaça a intimidade e a vida pública da maior estrela do Brasil, Ruy Castro nos leva a um passeio pelo Rio dos anos 20 e 30, e por Nova York e Hollywood dos anos 40 e 50 - cenários de que é especialista. E ainda resgata a história da música popular brasileira, da praia, do Carnaval, da juventude do passado, da Rádio Mayrink Veiga, do Cassino da Urca, da Broadway, dos gângsters que dominavam os nightclubs americanos e dos bastidores dos estúdios de cinema - numa época em que os beijos eram em Technicolor e em que, para estrelas como Carmen, as noites não tinham fim.


Quando e como surgiu a idéia de biografar Carmen Miranda?
Foi há dez anos, quando terminei de escrever Estrela solitária. De livro para livro, sempre gostei de variar de personagem. Depois de escrever sobre um teatrólogo (Nelson Rodrigues) e um jogador de futebol (Garrincha), achei que gostaria de biografar uma mulher. Pensei logo em Leila Diniz e em Carmen. O foco sobre Leila espalhou-se por Ipanema e se transformou no livro Ela é carioca, de 1999. Mas Carmen merecia um livro só para ela. Hoje está claro para mim que, além de fabulosa cantora, ela foi uma das moças mais modernas e revolucionárias de seu tempo. Carmen era independente, falava palavrão e todo mundo sabia que tinha vida sexual com o namorado, mas ninguém lhe faltava ao respeito. E isso em pleno ano de, digamos, 1930!

Você já afirmou que não escreveria mais biografias. O que o fez mudar de idéia?
A própria Carmen. Era irresistível como artista, como mulher e como personagem. Gosto dela desde que nasci e, talvez, até antes. Meu pai, solteiro no Rio dos anos 30, morava na Lapa, era boêmio, tocava violão e freqüentava as estações de rádio. Era fã de Carmen, de Mario Reis, de Chico Alves, e tinha centenas de discos de 78 rpm. Cresci ouvindo esse repertório. Lembro-me muito bem do dia da morte de Carmen, em agosto de 1955 - tinha sete anos, mas vi como a notícia abalou minha família. E eu próprio sempre a achei a maior cantora brasileira de todos os tempos.

Quanto tempo você levou para investigar e escrever Carmen?
Comecei a trabalhar no livro em janeiro de 2001, recolhendo material em arquivos, sebos e leilões - enquanto isso, estava escrevendo Carnaval no fogo. Em 2003, assim que entreguei esse livro à editora, mergulhei para valer em Carmen. Entre investigar e escrever, foram quase três anos de dedicação integral, e que eu não trocaria por nada. Falei com cerca de 170 fontes diretas, num total de mais de mil entrevistas, incluindo uma grande quantidade de contemporâneos de Carmen - homens e mulheres na faixa dos noventa anos, perfeitamente lúcidos e ativos. (Nunca deixei de me comover com o amor que ainda sentiam por Carmen.) Em certos casos, foi uma corrida contra o tempo - e perdi alguns por uma questão de dias. Graças à ajuda dos amigos, ouvi todos os discos citados no livro e vi todos os filmes - os de Carmen, inúmeras vezes. Fui a Várzea de Ovelha, onde Carmen nasceu, perto da cidade do Porto, e conversei com seus parentes, inclusive uma prima-irmã.

Há descobertas de que você se orgulha particularmente?
Ah, muitas. A primeira foi a reconstituição da infância de Carmen na colônia portuguesa no Rio, no começo do século XX. Outra foi a de que a Lapa, onde ela morou dos seis aos dezesseis anos, de 1915 a 1925, foi fundamental para a sua formação. Carmen estava no lugar certo quando muitas coisas importantes estavam começando: a Lapa, a Cinelândia, a praia, o rádio, o disco e o cinema. Tudo isso é inédito. Outra passagem de que me orgulho é a reconstituição do show no Cassino da Urca em 1940 com a presença de tanta gente do governo na platéia, a maioria simpatizante de Hitler - foi por isso que hostilizaram Carmen e disseram que ela voltara “americanizada”... E, finalmente, a relativização da famosa Política da Boa Vizinhança - que só teve alguma importância porque contou com Carmen Miranda, e não o contrário.

Você diria que Carmen é sua melhor biografia, até pela experiência acumulada?
Sim. Mesmo porque não é só uma biografia. É também um levantamento de uma época maravilhosa e uma história de como as drogas ditas “legais” acabaram com a vida de várias estrelas do cinema, como Carmen, Marilyn Monroe, Judy Garland. Não sei se devo confessar, mas eu próprio chorei ao escrever o final do livro.

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