outubro 16, 2004

Fernando Sabino por Zuenir, hoje


Zuenir Ventura, mineiro, escreve hoje em O Globo, sobre Fernando Sabino, mineiro.
«Nunca acompanhei um enterro como o de Fernando Sabino. Acho que foi como ele queria. Os amigos conversavam, riam, contavam histórias e não iam embora, apesar do forte mormaço. Foi o mais demorado que se tem memória. “Se colocarem um copo de cerveja em cima do túmulo, ninguém mais sai daqui”, comentou o deputado Miro Teixeira, marido de Leonora, filha de Fernando. O ponto alto (já ia escrever “da festa”) foi a Ramblers Traditional Jazz Band tocando músicas como nos funerais negros de Nova Orleans. O cronista deve ter gostado. Claro que teria preferido participar da apresentação tocando bateria, como fizera um ano antes quando reuniu alguns amigos para comemorar o seu 80.º aniversário.
[…] Vi muita gente rir chorando. Verónica entre lágrimas se lembrava rindo da última vez que estivemos com seu pai no bar da Livraria da Travessa, não faz muito tempo. Com uma boa platéia na mesa, Fernando estava especialmente engraçado. Como no enterro, não queria deixar ninguém ir embora. Quando alguém ameaçava se levantar, ele perguntava: “Vai fazer um discurso?” E não parava de contar histórias: “Espera aí, ouve só a última do mineiro.” Eram as minhas preferidas, porque ele conhecia a alma de seu povo como a dele próprio.
Dizia que mineiro é tão cauteloso e desconfiado que não gosta de revelar nem a identidade.
– Qual é o seu nome todos? – pergunta o carioca.
– Diz a parte que você sabe – desconversa o mineiro.
Nessa outra, o escritor conta o diálogo com um motorista mineiro em Nova York:
– Ah, você também é de Minas?
– Sou, sim sinhô.
– De onde?
– De Minas mesmo.
Se consegue esconder de onde é, imagina quando lhe pedem uma opinião política.
– Que tal é o prefeito daqui?
– O prefeito? É tal qual eles falam dele.
– E o que é que eles falam dele?
– Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo o que é prefeito.
Minas vai peder muito de sua graça sem as última do Fernando Sabino.»

1 comentário:

Rui Manuel Amaral disse...

Há outro relato sobre o funeral de Sabino escrito num tom muito próximo do de Zuenir Ventura. É o de Affonso Romano de Sant'anna, também no Globo:

http://oglobo.globo.com/jornal/colunas/affonso.asp