outubro 19, 2004

O Brasil por Joel Silveira


«É noite e São Paulo rico está resumido ali na pista do Jequiti-Bar. Durante o dia, as mulheres fizeram coisas inúteis: acordaram tarde, almoçaram em bloco, jogaram pife-pafe, compraram a revista Sombra, tomaram chá na Livraria Jaraguá, jantaram na Papote e falaram das amigas.
Os homens ganharam dinheiro. Alguns não fizeram muito esforço para isso: apenas assinaram alguns papéis. Outros estiveram nas fábricas, conversaram com o gerente, telefonaram para o Rio. À tarde foram ao Automóvel Club, um lugar triste como um cemitério. Perderam algum dinheiro em jogos inocentes; mas o que perderam nem chega a representar uma humilde fração dos lucros que conquistaram durante o dia.»

Este é um trecho de A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista, de Joel Silveira (nasceu em 1918), «o jornalista que cobriu fatos que marcaram a vida política do país e, no Rio de Janeiro, conviveu com artistas e intelectuais como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga». Em A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista, o tema é São Paulo -- mas vai ser lançado na próxima semana A Feijoada que Derrubou o Governo, mais textos dispersos de Joel Silveira sobre o Brasil (edição da Companhia das Letras).

2 comentários:

Ilidio Soares disse...

E também cobriu a Segunda Guerra Mundial. Para esta o Brasil não enviou apenas soldados pobres, mas essa maravilha de jornalista.
abçs
Ilidio

sub rosa disse...

Por causa disso: Joel Silveira foi enviado para cobrir a Guerra, como um castigo. Joel , jornalista dos Diários Associados, havia "falado mal" de uma dama da época e esta queixou-se a Chateaubriand, exigindo uma punição Compungido, pois sabia do grande valor de Joel como jornalista, Chateaubriand despachou Joel para a Itália, com uma "ordem": Sr Joel vá cobrir esta guerra. Vá e não me morra!
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Isto está registrado nos livros anteriores de Joel, que compõem uma espécie de "opera omnia".

Agora, o curioso é que certa vez Joel contando isto para sua entrevistadora Marília Gabriela, esta lhe perguntou (como se não bastasse o nonsense da ordem de Chatô):
Gabi:- E você não morreu, Joel?
Joel:- Eu? eu não! Se eu morresse o homem me despedia!

Como diria o Millôr: pano rápido!
hohoho
Meg