outubro 23, 2004
Oswald de Andrade
Acordo Ortográfico, 2. Uma precisão.
«Para facilitar a cooperação na África e no Timor, por exemplo, é fundamental essa ‘universalização’. Não dá para uma professora dizer ‘dictado’, seguindo um livro de Portugal e ‘ditado’ quando utilizar um livro do Brasil.»Não é verdade. No português de Portugal escreve-se «ditado» e não «dictado».
Acordo Ortográfico
«São 21 as bases de mudanças na ortografia da língua portuguesa. Com a reforma, o trema deixará de existir, a não ser em nomes próprios e seus derivados. O alfabeto passará a ter 26 letras, pois incluirá k, y e w. O h inicial e final das palavras também sofrerá alteração e permanecerão com ele apenas as palavras indicadas pela etimologia, por exemplo: homem, que vem do latim, homini.
Segundo nota divulgada pelo Itamaraty, "estima-se que a entrada em vigor do Acordo Ortográfico poderá evitar o grande custo de produção de diferentes versões de dicionários e livros em geral. Será também mais fácil estabelecer critérios unificados para todos os países de língua portuguesa, com relação a exames e certificações comuns de proficiência de português para estrangeiros".»
outubro 19, 2004
O Brasil por Joel Silveira
«É noite e São Paulo rico está resumido ali na pista do Jequiti-Bar. Durante o dia, as mulheres fizeram coisas inúteis: acordaram tarde, almoçaram em bloco, jogaram pife-pafe, compraram a revista Sombra, tomaram chá na Livraria Jaraguá, jantaram na Papote e falaram das amigas.
Os homens ganharam dinheiro. Alguns não fizeram muito esforço para isso: apenas assinaram alguns papéis. Outros estiveram nas fábricas, conversaram com o gerente, telefonaram para o Rio. À tarde foram ao Automóvel Club, um lugar triste como um cemitério. Perderam algum dinheiro em jogos inocentes; mas o que perderam nem chega a representar uma humilde fração dos lucros que conquistaram durante o dia.»
Este é um trecho de A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista, de Joel Silveira (nasceu em 1918), «o jornalista que cobriu fatos que marcaram a vida política do país e, no Rio de Janeiro, conviveu com artistas e intelectuais como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga». Em A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista, o tema é São Paulo -- mas vai ser lançado na próxima semana A Feijoada que Derrubou o Governo, mais textos dispersos de Joel Silveira sobre o Brasil (edição da Companhia das Letras).
Blog da Júlia, Nove de Copas
«me deu tanta vontade de te responder. eu me lembro dessa conversa sobre a calça de lycra como num sonho. talvez tenha sido de noite. eu e o ... nos encontrávamos muito à noite. era sempre assim, de noite era mais leve, era cheio de festa. não era boemia, era vida noturna mesmo.
fico pensando no que eu era antes. coisas que estão gravadas aqui. coisas que você escreve no blog e que eu queria ter tido para uma amiga que agora lê petrarca. tudo se encaixa. tenho um conto que ainda não existe e vivo sempre como um eco. os anos passados, as alegrias seguintes.
e nossos encontros. fora da página também é bonito.»
Letícia
Em Portugal teve algum sucesso A Casa das Sete Mulheres (edição brasileira na Record, edição portuguesa na Ambar -- além da série televisiva da Globo, que passou na Sic em Portugal). Para os interessados no género, aqui fica a capa de Um Farol no Pampa, de Letícia Wierzchowski, ainda sem edição portuguesa (publicado pela Record)
Alberto Mussa
Foi destaque na edição de sábado de O Globo (segundo caderno, link não disponível): é o novo livro de Alberto Mussa, O Enigma de Qal (edição Record), que encena «a busca fictícia da solução de um famoso enigma da cultura árabe», e roda em torno do poeta al-Gatash:
«Era o estímulo para uma exegese alegórica. Spíridon analisou a cena: três pessoas em três cruzes, cada cruz com quatro extremos -- 3, 3 e 4: portanto, um triângulo iósceles de perímetro 10 e de altura menor que a bae -- signo da natureza humana. Altura menor que a base indica maior propensão à terra que ao céu. O valor do perímetro, 10, é o dobro de 5 -- que são os extremos do corpo físico. A qualidade de isósceles, ou seja, a de possuir dois lados iguais, representa o equilíbrio do Bem e do Mal.»Alberto Mussa nasceu no Rio de Janeiro em 1961. Estudou Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro e foi professor. Livros anteriores: Elegbara (Revan, 1997), O Trono da Rainha Jinga (Nova Fronteira, 1999, que foi prémio da Biblioteca Nacional)
Mais, muito mais Millôr
O Tiago Luís dá uma dica aos fanáticos de Millôr Fernandes:
«Há uma página que tem vários textos do nosso velhote. Para consultar a maior parte tem que ser assinante, excepto o Daily Millôr (na coluna do lado esquerdo) onde se podem ler quase duzentos textos.»Obrigado, Tiago; continuamos à espera de mais sugestões.
outubro 16, 2004
Na Academia, corando
Meg
Cosac Naify
O Gávea em italiano
Leituras
Ler as crónicas de Paulo Roberto Pires, «O Encontro Adiado», e de Sérgio Rodrigues, «Um Mestre sem Imaginação».
Fernando Sabino por Zuenir, hoje
Zuenir Ventura, mineiro, escreve hoje em O Globo, sobre Fernando Sabino, mineiro.
«Nunca acompanhei um enterro como o de Fernando Sabino. Acho que foi como ele queria. Os amigos conversavam, riam, contavam histórias e não iam embora, apesar do forte mormaço. Foi o mais demorado que se tem memória. “Se colocarem um copo de cerveja em cima do túmulo, ninguém mais sai daqui”, comentou o deputado Miro Teixeira, marido de Leonora, filha de Fernando. O ponto alto (já ia escrever “da festa”) foi a Ramblers Traditional Jazz Band tocando músicas como nos funerais negros de Nova Orleans. O cronista deve ter gostado. Claro que teria preferido participar da apresentação tocando bateria, como fizera um ano antes quando reuniu alguns amigos para comemorar o seu 80.º aniversário.
[…] Vi muita gente rir chorando. Verónica entre lágrimas se lembrava rindo da última vez que estivemos com seu pai no bar da Livraria da Travessa, não faz muito tempo. Com uma boa platéia na mesa, Fernando estava especialmente engraçado. Como no enterro, não queria deixar ninguém ir embora. Quando alguém ameaçava se levantar, ele perguntava: “Vai fazer um discurso?” E não parava de contar histórias: “Espera aí, ouve só a última do mineiro.” Eram as minhas preferidas, porque ele conhecia a alma de seu povo como a dele próprio.
Dizia que mineiro é tão cauteloso e desconfiado que não gosta de revelar nem a identidade.
– Qual é o seu nome todos? – pergunta o carioca.
– Diz a parte que você sabe – desconversa o mineiro.
Nessa outra, o escritor conta o diálogo com um motorista mineiro em Nova York:
– Ah, você também é de Minas?
– Sou, sim sinhô.
– De onde?
– De Minas mesmo.
Se consegue esconder de onde é, imagina quando lhe pedem uma opinião política.
– Que tal é o prefeito daqui?
– O prefeito? É tal qual eles falam dele.
– E o que é que eles falam dele?
– Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo o que é prefeito.
Minas vai peder muito de sua graça sem as última do Fernando Sabino.»
outubro 15, 2004
Sabino, Adeus
Quem nunca riu de verdade com os textos de Deixa o Alfredo Falar! não sabe o que perde. Fernando Sabino, um grande amigo de Portugal, morreu no passado dia 10. A sua biografia está neste link.
«Quando eu era menino, os mais velhos perguntavam: o que você quer ser quando crescer? Hoje não perguntam mais. Se perguntassem, eu diria que quero ser menino.»
Livros principais e a ler: O Homem Nu, A Mulher do Vizinho, Deixa o Alfredo Falar!, O Encontro das Águas, O Grande Mentecapto, Cartas Perto do Coração (Correspondência com Clarice Lispector), A Volta por cima.
Era um magnífico cronista.
Milton Hatoum na Antena Um (rima e tudo...)
Informação para os leitores portugueses do Gávea: este fim de semana, à meia-noite de domingo (de domingo para segunda, portanto), Milton Hatoum é entrevistado no programa «Escrita em Dia», da Antena Um. Milton é o autor de Relatos de um Certo Oriente e de Dois Irmãos (Companhia das Letras, no Brasil; Cotovia, em Portugal). O próximo livro de Milton Hatoum sairá em 2005 e o cenário é, mais uma vez, a Amazónia e o mundo dos libaneses de Manaus.
A entrevista é repetida às 23:59 de segunda-feira na RDP África, e às 21:05 de quarta-feira na RDP Internacional (horas de Lisboa).
Cafajeste
Zuenir
Memórias carioquinhas/2
Memórias carioquinhas
Verissimo, pai
Também na Companhia das Letras: continua a reeditar-se a obra completa de Erico Verissimo. Pessoalmente, Verissimo foi uma boa companhia da minha adolescência, sobretudo com Olhai os Lírios do Campo e as páginas de O Tempo e o Vento. Agora, estão aqui os dois volumes de O Continente, a história da formação do Rio Grande do Sul moderno (e federalista) diante de um Brasil distante.
Olha os gregos!
Eu acho bom esse modo de tratar os clássicos. Ruth Rocha já tinha abordado a Odisseia e lança-se agora na Ilíada, com Eduardo Rocha. Além da versão do original, há ainda ilustrações, mapas e notas explicativas. A edição é da Companhia das Letras.
outubro 12, 2004
Dalton Trevisan, o vampiro de Curitiba
«– Depois te beijava da ponta do cabelo até a unha encarnada do pé. Cada pedacinho escondido de teu corpo. Afastava essa coxa branquinha de arroz lavado em sete águas. E me perdia no teu abismo de grandes lábios rosa.
Agora a mãozinha quente e molhada.
– Sou homem de certa idade. Com a minha vivência faria você sentir prazer até no terceiro dedinho do pé esquerdo. De tanto gozo sairia flutuando pela janela sobre os telhados da Praça Tiradentes. […] Quer experimentar hoje?
– Próxima vez eu resolvo.
– Por que não agora? Já está aqui. Tão fácil. Até chovendo. Mais aconchegante.
– Hoje não.
– Você é que sabe. Só não creio na tua frieza. Tudo me diz que é moça fogosa. Essa boca vermelha e carnuda. É de quem gosta. Mais uma coisa, anjo, enquanto eu falava, o teu narizinho abria e fechava…»
Dalton Trevisan, Continhos Galantes
[edição L&PM]
outubro 09, 2004
Bernardo Carvalho na Antena Um
A entrevista é repetida às 23:59 de segunda-feira na RDP África, e às 21:05 de quarta-feira na RDP Internacional (horas de Lisboa).
Mais links
outubro 07, 2004
Mais autores no Gávea
Manifesto Antropófago
«A revista de antropofagia não tem orientação ou pensamento de espécie alguma:só tem estômago.»
«Não fazemos crítica literária. Intriga, sim!»
A pubicação do Manifesto Antropófago é um momento crucial da literatura e da cultura brasileiras. Foi publicado no primeiro número da Revista de Antropofagia, em Maio de 1928, e assinado, por Oswald de Andrade «em Piratininga, Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha».
A ideia base: «Alimentar-se de tudo o que o estrangeiro traz para o Brasil, sugar-lhe todas as idéias e uni-las às brasileiras, realizando assim uma produção artística e cultural rica, criativa, única e própria. Era preciso desvincular-se de laços passados, como o simbolismo, ainda fortemente presente naquela época.» O Manifesto Antropófago", de 1928, é a resposta do escritor Oswald de Andrade às questões postas pela Semana de Arte Moderna (1922). Para ele, a renovação da arte brasileira nasceria da retomada dos valores indígenas. A iniciativa não era inédita. Após a Independência, o romantismo já havia usado esse «índio mitológico» para construir uma identidade nacional, oposta à dos europeus.
Oswald retoma essa temática, mas rejeita a xenofobia de outros modernistas. A civilização europeia não deveria ser rejeitada, mas sim absorvida. A antropofagia é o símbolo dessa tese: o europeu deve ser devorado.
[Ver também Semana de Arte Moderna de 1922.]
Excerto do Manifesto:
«Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. Tupi, or not tupi that is the question.
Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.
Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.
[…]
Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.
Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.
Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.
O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.
[…]
A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura - ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo - a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.
Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema, - o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.
A nossa independência ainda não foi proclamada. Frape típica de D. João VI: - Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.
Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud - a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.»
Texto integral pode ser lido aqui.
Oswald de Andrade
Adicionado link sobre Oswald de Andrade, o antropófago.
Erro de português
Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português
Oswald de Andrade nasceu a 11 de janeiro de 1890 e é um dos mais significativos autores modernistas da literatura brasileira. Participou da Semana de Arte Moderna, editou o jornal O Homem do Povo e ajudou a fundar O Pirralho e a Revista Antropofágica. É de sua autoria o Manifesto Antropófago de 1928. Morreu em São Paulo a 22 de Outubro de 1954. Biografia neste link.
outubro 06, 2004
Paulinho Assunção, Kafka, Belo Horizonte, Joyce, abelhas
«Anteontem, Kafka, ao ver o verde-água das flores das jabuticabeiras, flores com tornados e furacões de abelhas em festa e revôos, as abelhas em saudações e reverências, abelhas orquestrais, abelhas nubentes com seus revôos de vésperas de frutos, pensei na moça que Vicente Gunz chama Cristina do Porto, a moça que também dá bons-dias e boas-tardes às florações das árvores portuguesas. Era manhã de fins de julho nos altiplanos do Alto do Paranaíba, lá onde nasceu João Serenus, lá onde os sanhaços vivem de namoro com as laranjeiras.»
«James Joyce nos visitou hoje na varanda da Rua Paraíba. Trazia um cachecol listrado, um chapéu com fitas verdes e ocupou o banquinho de sempre, um banco que fica ao sul da varanda e que dá para o jardim, quase rente ao canteiro de begônias cultivado pela Mulher da Aura Azul. Éramos seis, logo no começo da tarde. A todo instante João Serenus chamava Joyce para uma partida de truco. Joyce ria e solfejava velhas canções dublinenses. Murilo Rubião, no banquinho ao norte, admirava a coleção de borboletas-tigre de Vicente Gunz. A tarde caminhava de chinelos, preguiçosa e sem pátria, tarde de azuis cosmogônicos, fundos e profundos azuis da América do Sul. Tínhamos numerosas palavras leves, palavras-algodoais, no coração. E foi então que o Joyce, logo seguido por Lucas Baldus e, depois, por todos nós, decidiu cantarolar a quinta bachiana do Villa-Lobos.»
Blogs e sebos
Quantas vezes não passamos à porta dos sebos (alfarrabistas) e vemos essas colecções passadas pela poeira, pela humidade, pelo tempo? A mim, apetece-me levá-las para casa, folhear alguns dos livros, oferecer outros. No Alexandrinas há uma dessas evocações:
«Hoje passei num sebo aqui perto de casa e encontrei muitos volumes daquela coleção, publicada provavelmente lá pelos anos 70, dos ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura.
Você já deve ter visto; pelo menos aqui em São Paulo qualquer sebo tem. A capa às vezes é acobreada, às vezes branca, dependendo da edição. Um volume para cada ganhador do prêmio, um ou dois livros por volume. Bonitinha, gravações douradas na lombada, capa macia. Aquilo que se costumava chamar de "edição luxuosa" numa época em que isso não era tão comum.
A julgar pelas pencas de volumes disponíveis nos sebos de hoje, eles devem ter sido muito vendidos em seu tempo. Mesmo caros como suponho que eram.
Impossível não sorrir imaginando o público-alvo da série. Armandinho, o pequeno-burguês brasileiro de todas as épocas, que quer ter cultura e se familiarizar com a alta literatura de seu tempo. Não que ele próprio tenha muita consciência desse desejo, mas os publicitários e editores têm, e volta e meia atingem em cheio o coração de Armandinho com alguma nova surpresa.»
Caio Fernando Abreu
«Este parece ser o primeiro e último romance de Caio Fernando Abreu. Um jornalista à procura de uma atriz famosa, Dulce Veiga, encontra sua filha, que é uma roqueira. Tem muitos pontos onde poderia-se dizer que o autor sofria de pedantismo intelectual, porém isso não é verdade, considerando que pedantismo é algo de conhecimento burlesco, enquanto Caio Abreu tinha notável erudição. Pelo contrário. O jornalista, personagem principal do livro, é muito culto, gosta de coisas refinadas, e isso transparece em sua narração.
O jornalista vislumbra, na frente do Parque do Ibirapuera, em determinado trecho, uma mulher fazendo o mesmo aceno que Dulce Veiga fazia: colocar o dedo indicador da mão apontando para o céu. Em Aparecida do Norte que supostamente ela está escondida - pois ela fugiu da cidade de São Paulo, para encontrar sua paz. Seria a mulher do Parque a própria Dulce Veiga? Ele fica obsessivo com o gesto dela, e no final do livro ele encontra a paz que julga merecer, justamente em Aparecida do Norte, quando tenta encontrá-la.
Vale a pena ler o livro, é uma história de crise-superação, de certa forma. O jornalista está imensamente estressado, sem dinheiro e tudo mais, e no final encontra a sua paz, que está buscando faz tempo. Ele encontra, no caso, a paz, internamente, dentro de si mesmo, e faz o gesto de Dulce Veiga, apontando o indicador ao céu.»
outubro 05, 2004
Clarice Lispector partilhada
Ainda a Academia Brasileira de Letras. O caso de Adelita.
«Os integrantes da Academia Brasileira de Letras andam audaciosos demais. Ainda há pouco a turma que hoje organiza festas com a presença de colossos femininos (eventualmente sem calcinha, como comprovou a modelo e atriz Luana Piovani) nem sequer admitia a inclusão de escritoras na veneranda Casa de Machado. O primeiro mandamento do clube avisava: homem com homem, mulher com mulher. A mistura de sexos, mesmo naquele templo tão austero, poderia sugerir indícios de promiscuidade.O resto do texto está aqui.
Isso acabou quando já passava da hora: a ABL revogara pudores havia anos. Na década de 70, por exemplo, atropelara as últimas fronteiras da obscenidade ao conceder uma vaga a Aurélio de Lyra Tavares. Quem é a figura?, perguntarão os mais jovens. Que obras legou à posteridade esse intelectual tão pouco familiar à nação dos desmemoriados?, talvez se interroguem brasileiros de todas as idades.»
outubro 04, 2004
Descobrimos um meio de aparecer no Ibope...
O texto «Luana, Marmelo, Academia Brasileira de Letras» aumentou consideravelmente as nossas visitas e, ao mesmo tempo, a taxa de ocupação da caixa de correio. Informamos que ainda não há respostas certas para a pergunta que deixámos aí em baixo.
Na foto, Luana Piovani (que já foi musa inspiradora e obsessão de Luis Fernando Verissimo), sentada na Academia Brasileira de Letras, olhando para o busto de Machado de Assis. O cavalheiro ao lado não é Austregésilo de Athayde, antigo presidente da Academia, mas sim o namorado.
Paulo Francis e Ênio Silveira
«A posteridade foi infinitamente mais cruel com Francis, que virou a caricatura do reacionário em tempos politicamente corretos e, pior ainda, passou a ser idolatrado por isso. Dezenas de subarticulistas o elegem santo padroeiro para escorar vacilações intelectuais e agressividade verbal, sem levar em conta que o Paulo Francis a que tanto exaltam não foi um personagem dado e acabado, mas o resultado de um percurso intelectual rico e conturbado que seus admiradores de hoje certamente não teriam a mesma coragem em percorrer, bons fiscais de obras prontas que são.Todo o texto no No Mínimo.
Ênio Silveira é referido, muitas vezes, como o modelo do editor "romântico", uma espécie de doce anacronismo na tubaronagem do negócio editorial globalizado. É aquele nome que se homenageia com condescendência, minimizando quase sempre sua real contundência política e sua efetividade como empresário, sempre mobilizado em encontrar novas soluções para um produto cada vez mais difícil de vender como o livro. E, na maior parte das vezes, é minimizado que sua ousadia não se restringia à ideologia, muito pelo contrário, mas na possibilidade de apostar no novo, esta ainda existente mesmo em momentos de pragmatismo agudo.»
Verissimo & Rubem
Luana, Marmelo, Academia Brasileira de Letras
O Jorge Marmelo, no seu blog Apenas Um Pouco Tarde, descobriu que o Gávea estava de férias quando viu que não nos tínhamos referido ao magnífico momento em que Luana Piovani entrou na Academia Brasileira de Letras e, num cruzar-descruzar das pernas, mostrou aos fotógrafos (e ao sereno e literário busto de Machado de Assis, patrono dos patronos) que não usava calcinha nessa tarde. Bom, sabendo que a Piovani não é um modelo de inteligência literária, mas, supondo que não estivesse a mascar chiclete, não podemos senão congratular-nos com a graça do momento. Levantai-vos, académicos! Esqueçam os erros ortográficos da Piovani!
Já agora: Luana Piovani não foi a única presença feminina a ter chocado (chocou?) o augusto busto de Machado de Assis na ABL. Há anos, uma escritora portuguesa foi também protagonista de um momento de evanescência tropical. Cederemos a password do blog a quem acertar.
Primavera dos Livros em São Paulo
Nelson Motta, mais um noir
Depois de O Canto da Sereia (Um Noir Baiano), sua estreia no romance policial com um cenário cheio de música, mães de santo, carnaval, trios eléctricos e Salvador por todo o lado, Nelson Motta avança com um novo noir: trata-se de Bandidos e Mocinhas (edição Objetiva). Assunto para abertura: Lana Leoni é uma actriz sexy e decadente que morre no palco, misteriosamente assassinada durante a encenação de um polêmico sucesso teatral carioca.
Sophia no Brasil
Com selecção de poemas e prefácio de Vilma Arêas, a Companhia das Letras acaba de publicar Poemas Escolhidos, de Sophia de Mello Breyner Andresen. E com uma capa muito bonita e excelentes cuidados gráficos.
Cony em Portugal
Mais autores no nosso arquivo
Caio Fernando Abreu é um autor a visitar e a revisitar. Pode ler-se o seu Onde Andará Dulce Veiga? (romance, publicado pela Companhia das Letras), Triângulo das Águas (contos, edição Siciliano) ou Estranhos Estrangeiros (mais contos, Companhia das Letras). Caio nasceu em 1948, em Santiago do Boqueirão, no Rio Grande do Sul, e morreu em 1996, em Porto Alegre. Publicou doze livros, vários deles traduzidos para o francês, o inglês, o alemão e o holandês.
Livros na BN
Este pequeno texto é uma grande barafunda linguística, eu sei. Browser, friendly, site, etc.
Real Gabinete, uma adenda
Real Gabinete, Portugal no Rio
O leitor ECG propõe o link do Real Gabinete Português de Leitura, e faz muito bem. O Real Gabinete é um edifício belíssimo, o seu hall de entrada é fantástico, e a sua biblioteca não é nada menosprezável. Infelizmente, nem sempre tem a atenção que merece.
Imagens da biblioteca e da fachada do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro (Rua Luís de Camões, 30 - Centro - Rio de Janeiro - RJ - CEP: 20051-020. # Telefone: (+ 55 21) 2221-3138 Tel/Fax: (+ 55 21) 2221-2960)
Mais livros online
Brasil em Portugal
A rádio portuguesa Antena Um (pode acessar-se neste site) acaba de transmitir uma entrevista com Luiz Antônio Assis Brasil no «Escrita em Dia» (domingos para segunda, à meia-noite); trata-se de uma série de conversas com escritores brasileiros. Na semana passada, foi Moacyr Scliar. Seguem-se, por esta ordem, semana a semana, Bernardo Carvalho (prémio Jabuti deste ano, autor de Mongólia, Aberração, Teatro, etc.), Roberto Pompeu de Toledo (cronista da Veja e autor de São Paulo, Capital da Solidão, edição Objetiva), Milton Hatoum (autor de Relatos de um Certo Oriente e de Dois Irmãos, edição portuguesa na Cotovia), Heloísa Seixas (autora de O Pente de Vénus, Histórias do Amor Assombrado, edição Record, que pode ser lida semanalmente no Jornal do Brasil, na sua coluna «Contos Mínimos»), Sérgio Sant’anna (autor de O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, de Junk Box, de O Monstro”, de Um Crime Delicado e de O Voo da Madrugada, este último publicado em Portugal pela Cotovia), Zuenir Ventura (colunista de O Globo, autor de 1968, o Ano que não Terminou, de Cidade Partida e de Mal Secreto, da Objetiva) e, finalmente, de Luiz-Alfredo Garcia Roza (autor de O Silêncio da Chuva, Achados e Perdidos, Vento Sudoeste ou Uma Janela em Copacabana, publicados no Brasil pela Companhia das Letras e em Portugal pela Gótica). São várias semanas de rádio luso-brasileira.
O «Escrita em Dia» é emitido na Antena Um à meia-noite da madrugada de domingo para segunda; às 23:59 de segunda-feira na RDP África; e às 21:05 de quarta-feira na RDP Internacional (horas de Lisboa).
Regresso
setembro 17, 2004
Debate no Gávea
«Eu não nego o desconhecimento, com o qual perdemos muito; mas, do pouco que sei, parece-me também que o próprio Brasil não reconhece actualmente figuras canónicas comparáveis às que teve o século passado. Corrijam-me se estou errado, mas onde é que lá há hoje poetas vivos com uma reputação comparável à que tiveram, em vida, Drummond ou João Cabral de Melo Neto? Ou romancistas com o estatuto de Guimarães Rosa, também consagrado em vida? Ao contrário do que acontecia no tempo deles, a "opinião estabelecida" no Brasil não parece achar que haja autores brasileiros vivos particularmente geniais. E isso confirma a impressão da sua literatura viver um certo declínio, embora relativo.»
Aguardam-se mais contributos.
Paulo Francis/2
Além disso, envia também um link com o site de Daniel Piza, a consultar e a reter.
setembro 16, 2004
Primavera dos Livros
Começou hoje, no Jockey Clube do Rio de Janeiro (ah, que lugar!) a quarta edição da Primavera dos Livros.
setembro 15, 2004
Livro Aberto
Mais livros online
Tal como os outros sites, constitui um bom banco de livros de literatura brasileira. Infelizmente, os textos não possuem ficha competente, mas não se pode ter tudo.
setembro 14, 2004
José Eduardo Agualusa
Ruy Espinheira Filho
Blogs/vária
Lisboa/Rio Grande do Sul
Dúvidas de método
Respostas breves, mas só para iniciar o debate -- esperamos contribuições dos leitores do Gávea: 1) Há, em Portugal, falta de informação sobre literatura brasileira de hoje, embora o salto qualitativo das edições tenha sido notável (Bernardo Carvalho, Patrícia Melo, Rubem Fonseca, Sérgio Sant'anna, Raduan Nassar, Adélia Prado, Cecilia Meirelles, Milton Hatoum, Chico Buarque, entre outros, têm sido publicados com regularidade -- depois de um período em que não houve resposta por parte do público) -- embora faltem João Gilberto Noll, por exemplo, Adriana Lisboa, Assis Brasil, por exemplo; 2) Não, não, não. Somos contra a reformatação dos textos. Basta ler, basta ver.
Paulo Francis
Raduan Nassar, correcção
setembro 10, 2004
Recensões/resenhas
Intercâmbio cultural
Vale a pena, por causa das notas de rodapé. Do género: «Gabriel Alves: famoso locutor esportivo.» Edição brasileira na Ediouro.
Budapeste
Extracto de Budapeste, de Chico Buarque, o prémio recebido em silêncio:
«Fui dar em Budapeste graças a um pouso imprevisto, quando voava de Istambul a Frankfurt, com conexão para o Rio. A companhia ofereceu pernoite num hotel do aeroporto, e só de manhã nos informariam que o problema técnico, responsável por aquela escala, fora na verdade uma denúncia anônima de bomba a bordo. No entanto, espiando por alto o telejornal da meia-noite, eu já me intrigara ao reconhecer o avião da companhia alemã parado na pista do aeroporto local. Aumentei o volume, mas a locução era em húngaro, única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita. Apaguei a tevê, no Rio eram sete da noite, boa hora para telefonar para casa; atendeu a secretária eletrônica, não deixei recado, nem faria sentido dizer: oi, querida, sou eu, estou em Budapeste, deu um bode no avião, um beijo. Eu deveria estar com sono, mas não estava, então enchi a banheira, espalhei uns sais de banho na água morna e me distraí um tempo amontoando espumas. Estava nisso quando, zil, tocaram a campainha, eu ainda me lembrava que campainha em turco é zil. Enrolado na toalha, atendi à porta e topei um velho com uniforme do hotel, uma gilete descartável na mão. Tinha errado de porta, e ao me ver emitiu um ô gutural, como o de um surdo-mudo. Voltei ao banho, depois achei esquisito hotel de luxo empregar um surdo-mudo como mensageiro. Mas fiquei com o zil na cabeça, é uma boa palavra, zil, muito melhor que campainha. Eu logo a esqueceria, como esquecera os haicais decorados no Japão, os provérbios árabes, o Otchi Tchiornie que cantava em russo, de cada país eu levo assim uma graça, um suvenir volátil. Tenho esse ouvido infantil que pega e larga as línguas com facilidade, se perseverasse poderia aprender o grego, o coreano, até o vasconço. Mas o húngaro, nunca sonhara aprender.»
Os outros romances de Chico Buarque: Benjamim e Estorvo, publicados no Brasil pela Companhia das Letras; em Portugal pela Dom Quixote. Está ainda publicado, pela Companhia das Letras, Chico Buarque: Letra e Música (Vol. 1), reunião das suas canções.
Jabuti: os prémios máximos
Via Folha de São Paulo:
«Chico Buarque e Caco Barcelos são os vencedores do prêmio máximo do Jabuti. A Câmara Brasileira do Livro (CBL) anunciou, na noite de ontem, os dois vencedores das principais categorias do Jabuti, em cerimônia realizada no Memorial da América Latina, em SP.
O livro-reportagem Abusado, de Barcelos, e o romance Budapeste, de Chico, foram eleitos Livro do Ano-Não Ficção e Livro do Ano-Ficção, respectivamente. O anúncio de Barcelos como vencedor foi muito aplaudida. A vitória de Budapeste, ao contrário, foi recebida com silêncio. O livro de Chico não constava da lista de vencedores já conhecida até então, tendo recebido anteriormente menção honrosa como romance.»
Causa estranheza, de facto, esta atribuição do prémio a Budapeste.
Bernardo Carvalho
Além de repetir o Jabuti, este ano, Mongólia, de Bernardo Carvalho recebeu já a distinção de melhor livro pela Associação Paulista de Críticos de Arte e disputa (ver post mais abaixo) o prémio Portugal Telecom Brasil 2004.
Extracto de Mongólia:
«Foi chamado de Ocidental por nômades que não conseguiam dizer o seu nome quando viajou pelos confins da Mongólia. Fazia tempo que eu não ouvia falar dele, até ler a reportagem no jornal. Voltou da China há cinco anos e largou a carreira diplomática. Sua volta intempestiva coincidiu com a eclosão da crise da pneumonia atípica na Ásia, o que pode ter servido de explicação para alguns, mas não para mim. O jornal diz que ele morreu num tiroteio entre a polícia e uma quadrilha de seqüestradores, quando ia pagar o resgate do filho menor no morro do Pavãozinho. Pela idade do garoto, só pode ser o que nasceu em Xangai, logo antes de voltarem para o Brasil, quando ele decidiu mudar de vida sem dar satisfações a ninguém. Ao que parece, também saiu de casa em sigilo, terça-feira de manhã, para pagar o resgate. Não avisou ninguém, muito menos a polícia. Seguiu à risca as ordens dos seqüestradores. Os policiais o seguiram assim mesmo, sem que ele percebesse. O menino foi salvo, mas ele morreu no local. Tinha quarenta e dois anos. Ninguém vai ser responsabilizado, é claro. A polícia alega que ele foi imprudente. Liguei para um diplomata do Itamaraty que vive em Varsóvia e que o conhecia desde pequeno. Eram amigos de infância. Estava muito abalado. Decidira pegar o primeiro avião para o Brasil, que partia de Frankfurt naquela mesma noite. Estava de saída para o aeroporto. Não tinha tempo para falar comigo. [...] A literatura já não tem importância. Bastaria começar a escrever. Ninguém vai prestar atenção no que eu faço. Já não tenho nenhuma desculpa para a mais simples e evidente falta de vontade e de talento. O fato é que a notícia da sua morte me deixou ainda mais prostrado. Foi uma razão a mais para não sair. Não sou um homem especialmente corajoso, e os anos foram me deixando cada vez menos. Em princípio, ele também não era de correr riscos. Mas, ao contrário do que acontecia comigo, a impaciência e o destino o impeliam irremediavelmente na direção do perigo. Foi pensando nisso que, de repente, lembrei que ainda deviam estar comigo as coisas que ele tinha deixado na embaixada de Pequim antes de voltar para Xangai e retomar as funções de vice-cônsul, não por muito tempo.»
Bernardo nasceu no Rio de Janeiro, em 1960 e vive em São Paulo. Foi correspondente da Folha de São Paulo em Paris e Nova York e escreve actualmente para o mesmo jornal. Outros livros de Bernardo Carvalho: Aberração, Onze, Os Bêbados e os Sonâmbulos, Teatro, As Iniciais, Nove Noites.
Jabuti
No caso da ficção, Bernardo Carvalho repete o Jabuti -- na lista estiveram nomes como Luiz Antônio Assis Brasil (A Margem Imóvel do Rio), Chico Buarque (Budapeste), que ficaram, respectivamente, em segundo e em terceiro lugar.
Fernando Pessoa
Vaidade lusitana... (corando)
Lêdo Ivo
Não quero achar o que os outros perderam:
as moedas no chão, os guarda-chuvas
esquecidos nos ônibus, e a vida
deixada por engano sobre o asfalto.
Ao que ninguém viu, aspiro; ao que existiria
em forma de mar e árvore, se a natureza habitual não irrompesse
com suas sombras e cigarras e cascatas.
Quero, sonho e adiro o inédito
como a noite no caracol de uma escada
contudo perto das constelações se eu pudesse vê-las de outro planeta.
[...]
Lêdo Ivo
Lêdo Ivo nasceu em Maceió, estado de Alagoas, em 1924. Jornalista, poeta, romancista e ensaísta. Alguns livros: O Caminho sem Aventura, romance (1948); Poesia Observada, ensaios (1967); Finisterra, poesia (1972); Modernismo e Modernidade, ensaio (1972); O Sinal Semafórico, obra poética até 1974; Teoria e Celebração, ensaio (1976); Confissões de um Poeta, autobiografia (1979); A Ética da Aventura, ensaio (1982) A Noite Misteriosa, poesia (1982); A Morte do Brasil, romance (1984); Calabar, poesia (1985); Crepúsculo Civil, poesia (1990).
Mais curiosidades
«Aos dezessete anos, Carlos Drummond de Andrade foi expulso do Colégio Anchieta, em Nova Friburgo (RJ), depois de um desentendimento com o professor de português. Imitava com perfeição a assinatura dos outros. Falsificou a do chefe durante anos para lhe poupar trabalho. Ninguém notou. Tinha a mania de picotar papel e tecidos. "Se não fizer isso, saio matando gente pela rua". Estraçalhou uma camisa nova em folha do neto. "Experimentei, ficou apertada, achei que tinha comprado o número errado. Mas não se impressione, amanhã lhe dou outra igualzinha."»
«Érico Veríssimo era quase tão taciturno quanto o filho Luís Fernando, também escritor. Numa viagem de trem a Cruz Alta, Érico fez uma pergunta que o filho respondeu quatro horas depois, quando chegavam à estação final.»
«Jorge Amado para autorizar a adaptação de Gabriela para a tevê, impôs que o papel principal fosse dado a Sônia Braga. "Por quê?", perguntavam os jornalistas, Jorge respondeu: "O motivo é simples: nós somos amantes." Ficou todo mundo de boca aberta. O clima ficou mais pesado quando Sônia apareceu. Mas ele se levantou e, muito formal disse: "Muito prazer, encantado." Era piada. Os dois nem se conheciam até então.»
«Clarice Lispector era solitária e tinha crises de insônia. Ligava para os amigos e dizia coisas perturbadoras. Imprevisível, era comum ser convidada para jantar e ir embora antes de a comida ser servida.»
Gabinete de curiosidades
«Numa das viagens a Portugal, Cecília Meireles marcou um encontro com o poeta Fernando Pessoa no café A Brasileira, em Lisboa. Sentou-se ao meio-dia e esperou em vão até as duas horas da tarde. Decepcionada, voltou para o hotel, onde recebeu um livro autografado pelo autor lusitano. Junto com o exemplar, a explicação para o "furo": Fernando Pessoa tinha lido seu horóscopo pela manhã e concluído que não era um bom dia para o encontro.»
«Manuel Bandeira sempre se gabou de um encontro com Machado de Assis, aos dez anos, numa viagem de trem. Puxou conversa: "O senhor gosta de Camões?" Bandeira recitou uma oitava de Os Lusíadas que o mestre não lembrava. Na velhice, confessou: era mentira. Tinha inventado a história para impressionar os amigos.»
Obrigado ao Rui Tavares.
setembro 09, 2004
Ivan, a Praia, a Gávea
Ivan Nunes, no A Praia:
«Há esta coisa que me faz muita espécie: temos uma língua que, por via de acidentes históricos, é falada por um número incrivelmente maior de pessoas do que aquelas a que a nossa dimensão enquanto país em princípio nos condenaria; e, ainda assim, damo-nos ao luxo de não querer saber do que se faz e escreve em português, de torcer o nariz face ao "sotaque" da escrita brasileira, etc. É como se persistíssemos em querer ser apenas dez milhões, em querer saber apenas do que fazem dez milhões, quando teríamos um acesso muito fácil ao que fazem outros duzentos milhões com a mesma língua. É claro que, inversamente, para mim é também penoso o desconhecimento que os brasileiros em geral têm do que possa ser Portugal hoje, para além do nível da anedota sobre o Joaquim da Padaria. É penoso, sim - não têm a menor ideia, são arrogantes e não querem saber; mas eles sempre têm os números a seu favor.
Nós, pelo nosso lado, temos uma espécie de desdém primeiro-mundista (olha quem) mal assumido, que nos permite olhar para o Brasil e para os brasileiros achando que eles "falam mal", que são atrasados e preguiçosos.»
Relatos de Lagutrop
«Saudade do presidente Figueiredo. Nem só de futebol, praia e bunda é feito o Brasil. Qualquer pessoa atenta sabe isso. Até considera a afirmação uma banalidade. Mas Portugal é pródigo em pessoas desatentas. Em turistas encantados com a natureza, as putas e os preços baixos do Brasil. E broncos em relação ao resto. Broncos e muitas vezes decorados com uma disparatada arrogância cultural. Delambida. Puro complexo de colonizador.»
Guimarães Rosa
setembro 08, 2004
Sérgio Augusto
Sérgio Augusto é bem conhecido dos cinéfilos: fez crítica em quase tudo o que é jornal e revista brasileira (do JB à Veja, do Estadão à Bundas -- e é autor de um livro notável sobre a chanchada brasileira (Este Mundo é um Pandeiro: Chanchada de Getúlio a JK), o filme série bem lá abaixo. Há dois anos, a Record publicou uma reunião das suas crónicas (com prefácio de Luis Fernando Verissimo) com o título Lado B. Agora, publica um livro sobre o Botafogo, o time carioca de futebol: Botafogo — Entre o Céu e o Inferno (edição Ediouro). Dada a situação do Botafogo no campeonato brasileiro, trata-se mesmo de inferno...
Na mesma colecção, a Camisa 13, está já publicado o livro de Ruy Castro sobre o Flamengo: Vermelho e o Negro. Pequena Grande História do Flamengo — o que é notável: rubro-negro como é, Ruy Castro escreveu a biografia de Nelson Rodrigues, um tricolor (Fluminense), e de Garrincha, justamente, um alvinegro (Botafogo).
Gregório de Mattos, mais canónico
«Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.
Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.»
Gregório de Mattos ou o turismo em Itaparica nos séculos de ouro, com perdão antecipado
Gregório de Mattos e Guerra, que viria a ser conhecido como “o Boca do Inferno”, nasceu em Salvador, na Bahia, a 23 de Dezembro de 1636. Depois de ter vivido em Portugal, representando a Bahia nas Cortes, e de ter cumprido funções eclesiásticas, regressa a Salvador para tmar ordens na diocese. Impedido, explora a sua dimensão de «poeta satírico», mas também lírico, pornográfico, violento. Perseguido, odiado e amado, foi desterrado para Angola. Morre no Recife em 1695, de uma febre contraída na África, com 59 anos, no dia 26 de Novembro.
L.A. Assis Brasil
«Vieram na segunda classe, no mesmo navio que reconduzia para cá D. Pedro II depois de uma visita à Europa. Ela enxergara o Imperador tomando sol no convés mais alto. Abanou-lhe. Foi retribuída. Desde então o Monarca passara a ser apenas um homem como os outros.
– D. Pedro é um homem como os outros – ela um dia disse ao Historiador, provocando-lhe uma reação de espantada incredulidade. Ele nunca pensara nisso. O fascínio imperial estava muito acima dessas contingências humanas.
A primeira coisa do Brasil a chamar a atenção de Cecília foi a selva. Em Portugal a natureza fora domada havia séculos. Aqui, a selva, plena de vapores, crescia por tudo, recobrindo as montanhas do Rio de Janeiro e entranhando-se no caráter das pessoas. A selva possuía algo de misterioso, como um coração.» [Luiz Antônio de Assis Brasil, A Margem Imóvel do Rio, LP&M Editores, 2003.]
Luiz Antônio de Assis Brasil nasceu em Porto Alegre, onde vive, em 1954. É professor universitário e já escreveu um livro de ensaios sobre literatura dos Açores. Entre os seus livros contam-se O Homem Amoroso, Breviário das Terras do Brasil, O Pintor de Retratos (publicado em Portugal) e A Margem Imóvel do Rio, que foi finalista do Prémio Jabuti e é também do Portugal Telecom Brasil.
No mínimo, conversarmos
Muitos portugueses precisavam de uma terapia de choque nesse sentido. Eu tive a minha quando frequentei Literatura Brasileira na universidade. Íamos cheios de Jorge Amado, Graciliano e pouco mais, mas isso garantia uma série de certezas absolutas – Érico Veríssimo estava um pouco deslocado no retrato, era leitura de família. Mas Guimarães Rosa era um mundo longínquo que falava outra língua, Machado uma espécie de subproduto desconhecido (que Eça satirizava em privado, rindo do mulato), os modernos escreviam numa gramática terrível, cheia de sons e de atropelos. Manuel Bandeira, por tradição, conhecíamos, sim, e Vinicius, pelas canções, e Drummond, porque sim. Não vale a pena enumerar as desgraças. O meu professor era o poeta (angolano) Mário António Oliveira. As suas primeiras palavras foram simples: «Lamento desiludi-los, mas a literatura brasileira é muito superior à portuguesa.» Um eco de indignação percorreu a sala. Ele ria. Abençoado riso. Semanas depois percebíamos a provocação. Eu tinha percebido a provocação com Gregório de Mattos (o homem falava de Itaparica e, junto com as águas azuis e transparentes da ilha, falava das putas e dos álcoois), por exemplo, ainda que aceitasse com dificuldade, nesses anos, dividir Tomaz Gonzaga ou Cláudio Manuel da Costa com Ouro Preto (a Inconfidência, aliás, era um pormenor na leitura dos autores brasileiros), e encontrar consonâncias em Castro Alves ou Olavo Bilac (ah, a última flor do Lácio…). Se Capitú traiu ou não, sempre me pareceu assunto secundário, desde que Brás Cubas continuasse a perorar além-túmulo. E, depois, que brincadeira era essa de haver um leitor brasileiro de Sterne? Preconceito sincero. Quando Antônio Cândido teve o Premio Camões, houve mesmo um professor de uma universidade de Lisboa (e de literatura, e de esquerda, e que participava em jornadas de apoio ao PT…) que desabafou para os jornais: «É essa mania de premiarem os desconhecidos…» Coitado do Antônio Cândido. Vocês também não se portavam muito melhor, é preciso dizer. Quanto ao preconceito, nessas aulas de literatura, desapareceu com o tempo e com uma dose de ciúmes assombrosa, quando se descobriu que Oswald de Andrade tinha seduzido Isadora Duncan daquela maneira gloriosa, como um canibal de verdade. Eça riu dos paulistas que se atiraram aos pés de Sarah Bernhard, mas a verdade é que os autores portugueses não tiveram grandes momentos de exuberância, pequeninos e confinados a um mundo de fronteiras curtas. Isto também tem os seus exageros, mas a culpa também é vossa. Não sei porquê. Deve ser dessa mania de implicarem com os portugas, não sei; e de os portugueses fingirem que são tão sérios que ainda não aprenderam a brincar. Temos de viver com isso.
Links
Diogo Mainardi
«Em 1741, o herege português Pedro De Rates Henequim baseou-se nas Escrituras para afirmar que o Brasil era o autêntico paraíso terrestre, o Éden, o jardim das delícias. O nome Adão, em hebraico, significa “vermelho”. Entendeu? De acordo com Pedro de Rates Henequim, Adão pertencia à raça vermelha, sendo um antepassado dos nossos indígenas. O Livro dos Cânticos “é todo profecia do Brasil”, como atesta a referência à bebida de milho pisada fabricada por nossos selvagens. […] Pedro de Rates Henequim incorreu também em inúmeros desvarios geográficos, afirmando que o Brasil só sobreviveu ao Dilúvio Universal porque “é uma ilha que se gira em rodas sobre o mar”. Felizmente, foi capturado pelo tribunal da Inquisição, que teve o bom senso de condená-lo à pena de estrangulamento pelo garrote, como a ordem suplementar de queimar todos os seus restos, “de sorte que nem delle nem de sua sepultura possa haver memoria alguma”.» [Diogo Mainardi, Contra o Brasil. Companhia das Letras, 1998.]
Diogo Mainardi nasceu em 1962. Viveu durante alguns anos na Europa (Inglaterra e Itália), é colunista semanal da Veja e participa no programa Manhattan Connection, do canal de cabo GNT. Publicou vários livros: Malthus, Arquipélago, Polígono das Secas e Contra o Brasil, todos na Companhia das Letras.
Mais livrarias
Nota muito pessoal infelizmente, para quem vive fora do Brasil, a Ornabi não tem site – trata-se de um dos sebos (alfarrabistas) históricos da cidade. O fundador, um português, recolheu aqui algumas centenas de milhar de títulos. Para quem vive no Brasil, aconselha-se uma visita.
setembro 07, 2004
Biblioteca no Metro
«Inaugurada na quarta-feira, na estação Paraíso, a biblioteca "Embarque na Leitura" é a primeira no país a ser instalada em uma estação metroviária.
O acervo inicial possui 4.000 volumes de gêneros diversos: literatura nacional e estrangeira, livros infanto-juvenis, além de áreas temáticas como sociologia, artes e filosofia. Há também uma Bíblia em braile. O projeto é realizado pelo Instituto Brasil Leitor em parceria com a Secretaria dos Transportes Metropolitanos e com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura. Duas empresas privadas cobrem o custo total do empreendimento.
Para se cadastrar, os usuários precisam apresentar documento de identidade, comprovante de residência e uma foto 3x4. Menores de 12 anos devem ir acompanhados dos pais. Cada pessoa pode pegar um livro por vez e tem direito a ficar com ele por dez dias.
Além da biblioteca, está prevista a realização de conversas com escritores e contadores de histórias e tardes de autógrafos. A proposta é criar mais nove bibliotecas no metrô de São Paulo, mas não há previsão de quando isso será feito.»
João Gilberto Noll
É uma pena que João Gilberto Noll ainda não esteja publicado em Portugal. Acaba de ser publicado Lorde (edição W11/Francis). Os livros de Noll são curtos, sombrios como as águas do sul.
João Gilberto Noll nasceu em Porto Alegre, em 1946; foi jornalista e colaborador de muitos jornais e revistas, ensinou em universidades americanas e brasileiras. Outros livros a ler: Bandoleiros, Hotel Atlântico, Harmada, A Céu Aberto, Canoas e Marolas, Berkeley em Bellagio, por exemplo.
Chico Buarque. Entrevista
Entrevista de Chico Buarque à BBC/Brasil, via Folha de São Paulo.
Raduan Nassar
«Nem foi preciso fazer um voto de pobreza, mas fiz há muito o voto de ignorância, e hoje, beirando os quarenta, estou fazendo também o meu voto de castidade. Você tem razão, Paula: não chego sequer a conservador, sou simplesmente um obscurantista. Mas deixe este obscurantista em paz, afinal, ele nunca se preocupou em fazer proselitismo.» [De Menina a Caminho, 1997.]
Raduan Nassar nasceu em Novembro de 1935 numa família de origem libanesa. Além de Menina a Caminho, os outros livros de Raduan Nassar, publicados pela Companhia das Letras: Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera. Publicados em Portugal pela Relógio d'Água.
Tom Jobim para Vinicius de Moraes, via Maira Parula
«Morro de saudades. Acordo de madrugada e fico vagando pela casa, tomando café e fumando com aquele sentimento esquisito de lack of rabanadas. Recebi tua carta hoje de manhã, agora mesmo, às nove horas, e faz um dia lindo. Aquele frio lá fora, o céu azul transparente mostra que a poluição diminuiu bastante... Para mim seis degraus centígrados é frio à beça. Corro para dentro e ligo o heat na toda, no clima supertropical de Ipanamo. Mas o ar fica seco, racha-violão. Só mesmo no banheiro, com o chuveiro quente ligado, nu, de camisa de meia, na umidade das nuvens de vapor quente, fazendo uma infinita barba, com aparelho, pincel e muita espuma e respuma, gilete nova, desligado, num mundo sem problemas, só fico assim mais como Ipanerma, Ipanoma, Ipaderma, Ipanonha, Aipinina, Ipatonha... Ipanhonha?»
Blogs 3
«Se eu digo que nos galhos de um cedro do Líbano costumavam se aninhar todas as aves dos céus. Que à sua sombra se acolhiam todos os animais dos campos e descansava toda a espécie de gente. Se eu digo que meus ouvidos mortais não foram preparados para o som de cânticos, das harpas, das liras e dos címbalos. Que, antes disso, as ruas abertas de minha infância transformaram em mármore as tardes que hoje busco na memória. Se eu digo que minha raça, classe e sexo são definitivamente a garatuja de tudo aquilo que sou. Que tudo aquilo que sou poderia muito bem acomodar-se no espaço entre uma vírgula e um ponto num rodapé desnecessário. Que não tenho a pretensão das páginas elegantes para pendurar minhas reflexões rudimentares de minha vidinha rudimentar, muito menos quinhentos séculos de dúvidas. Se eu ainda assim digo que não acredito num livro total porque sempre desconfiei dos místicos e do seu Deus circular de lombada contínua, é porque, depois de tudo o que acabei de dizer ou que me disseram, o meu universo não é uma biblioteca, ou porque qualquer coisa que eu venha a dizer ou escrever não passam de letras soltas de uma história inteira de que quase nem lembro.»
Portugal Telecom Brasil
Romance brasileiro
Marisa Lajolo é professora de Teoria Literária na Unicamp, e trabalhou na Brown, onde aliás existe um bom departamento de literaturas românicas e hispânicas. A Objetiva lançou Como e Por Que Ler o Romance Brasileiro, numa colecção inspirada pelo título de Harold Bloom, e na qual já foram publicados os títulos Como e por que Ler os Clássicos Universais desde Cedo, de Ana Maria Machado, e Como e por que ler a Poesia Brasileira do Século XX, de Ítalo Moriconi. Pode ser uma interessante introdução ao tema.
Acordo ortográfico
Preconceito linguístico, preconceito lingüístico
«A idéia de “preconceito lingüístico”, popularizada pelo lingüista Marcos Bagno, da UnB, é de longe a mais pop criada pela moderna lingüística brasileira. Prestando atenção, vamos flagrar a patrulha espontânea do “preconceito lingüístico” em plena ação aqui e ali, em grupos de discussão na internet ou no bar, reagindo a qualquer reparo crítico que tenha a língua por alvo. Para ficar num exemplo só: outro dia, numa comunidade online dessas que estão na moda, um cidadão de Portugal se assustou com a expressão “linha do tempo” que um brasileiro usara. Propôs sua substituição por “cronologia” e a chamou de “brasileirismo horroroso”. Reação – compreensível – do nosso conterrâneo: “Olha o preconceito lingüístico aí!”.»