setembro 17, 2004

Debate no Gávea

Ainda André Murteira, que responde ao desafio lançado por Fernando Frazão há uns dias -- acerca da literatura brasileira actual, e se a actual é inferior à do passado «ou apenas menos conhecida entre nós do que era dantes»:
«Eu não nego o desconhecimento, com o qual perdemos muito; mas, do pouco que sei, parece-me também que o próprio Brasil não reconhece actualmente figuras canónicas comparáveis às que teve o século passado. Corrijam-me se estou errado, mas onde é que lá há hoje poetas vivos com uma reputação comparável à que tiveram, em vida, Drummond ou João Cabral de Melo Neto? Ou romancistas com o estatuto de Guimarães Rosa, também consagrado em vida? Ao contrário do que acontecia no tempo deles, a "opinião estabelecida" no Brasil não parece achar que haja autores brasileiros vivos particularmente geniais. E isso confirma a impressão da sua literatura viver um certo declínio, embora relativo.»

Aguardam-se mais contributos.

Paulo Francis/2

O André Murteira, leitor do Gávea, recomenda mais um link sobre Paulo Francis, além daquele que já tínhamos indicado (ver coluna dos links).
Além disso, envia também um link com o site de Daniel Piza, a consultar e a reter.

setembro 16, 2004

Primavera dos Livros


Começou hoje, no Jockey Clube do Rio de Janeiro (ah, que lugar!) a quarta edição da Primavera dos Livros.

setembro 15, 2004

Livro Aberto

O programa governamental Fome Livro, que este ano se designa Livro Aberto, escolheu 2.016 títulos para distribuição nacional em bibliotecas (apenas 130). Há alguma polémica, como se esperava, mas foi o princípio. No site da Fundação da Biblioteca Nacional vem a lista dos livros escolhidos.

Mais livros online

O IG (provedor brasileiro que esta semana mudou o nome Internet Grátis para Internet Generation) lançou também um serviço de download (com .zip) de textos integrais de língua portuguesa -- há também clássicos portugueses, como Alexandre Herculano, Eça, Camilo, Garrett, Pessanha, Antero de Quental, Cesário, Florbela Espanca, Gil Vicente, Júlio Dinis ou Vieira -- além de Camões, naturalmente. Tem alguma vantagem sobre outros sites de livros online, uma vez que o download é imediato. Outro pormenor: além dos clássicos de Língua Portuguesa tem, disponível em inglês, entre outros, Joseph Conrad, Poe, Shakespeare (Hamlet, Othello, MacBeth...), Milton (o Paradise Lost...), Agatha Christie, Jane Austen, Darwin, Hardy, Swift, etc., etc. Também aqui, a vantagem é a rapidez do acesso.
Tal como os outros sites, constitui um bom banco de livros de literatura brasileira. Infelizmente, os textos não possuem ficha competente, mas não se pode ter tudo.

Vinicius


Depois de protestos pela nossa falta, já está adicionado o link para Vinicius de Moraes.

setembro 14, 2004

Bíblias no Brasil

Brasil lidera publicação de Bíblias no mundo.

José Eduardo Agualusa

Alguma polémica, na blogosfera portuguesa, sobre a recente entrevista de José Eduardo Agulusa na revista Época -- nomeadamente, as suas frases sobre Saramago. Agualusa acaba de lançar, no Brasil, O Vendedor de Passados (edição da Gryphus).

Ruy Espinheira Filho

Livro do poeta Ruy Espinheira Filho sobre Manuel Bandeira: Forma e Alumbramento. Poética e poesia em Manuel Bandeira (edição José Olympio). O lançamento é no dia 17, em Salvador (onde vive Ruy), na Civilização Brasileira do Shopping Barra. Um de nós estará lá. Ver entrevista de Ruy Espinheira Filho na edição da Época desta semana (link não disponível).

Blogs/vária

Em breve teremos, no Gávea, uma lista de blogs brasileiros e portugueses que tratam do que nós tratamos. Está em organização. Entretanto, aceitamos sugestões que possam escapar à nossa navegação. O endereço de email é para usar.

Lisboa/Rio Grande do Sul

Um português e uma gaúcha decidiram unir as duas margens do Atlântico num blog. Mais literatura.

Dúvidas de método

O Fernando Frazão, que evoca «as carrinhas de chapa ondulada da Gulbenkian que tanto contribuiram para o meu gosto pela leitura» a propósito do post sobre as Bibliotecas do Metrô, em São Paulo, coloca duas questões curiosas: 1) «Depois da pujança da literatura brasileira do século passado assiste-se nomeadamente na sua primeira metade assiste-se a um decrescer de produção em quantidade e em qualidade ou é mero desinteresse dos editores portugueses?» 2) «Comparando o português escrito por brasileiros por autores classicos (Amado, Verissimo etc) com os modernos, noto um afastamento notavel em relação aos português dos portugueses. Será que é preciso traduzir ou "reformatar" os textos?»

Respostas breves, mas só para iniciar o debate -- esperamos contribuições dos leitores do Gávea: 1) Há, em Portugal, falta de informação sobre literatura brasileira de hoje, embora o salto qualitativo das edições tenha sido notável (Bernardo Carvalho, Patrícia Melo, Rubem Fonseca, Sérgio Sant'anna, Raduan Nassar, Adélia Prado, Cecilia Meirelles, Milton Hatoum, Chico Buarque, entre outros, têm sido publicados com regularidade -- depois de um período em que não houve resposta por parte do público) -- embora faltem João Gilberto Noll, por exemplo, Adriana Lisboa, Assis Brasil, por exemplo; 2) Não, não, não. Somos contra a reformatação dos textos. Basta ler, basta ver.

Paulo Francis

António Ramos, outro leitor atento do Gávea, propõe uma página sobre Paulo Francis, a quem dedicaremos em breve alguns posts; é sempre bom lembrá-lo.

Raduan Nassar, correcção

Correcção feita pelo Carlos Cunha (do blog Partículas Elementares, e leitor atento de Nassar): a edição portuguesa dos livros de Raduan Nassar é da Relógio d'Água e não da Cotovia.

setembro 10, 2004

Recensões/resenhas

Mongólia, de Bernardo Carvalho, lido por Claudinei Vieira; Budapeste, de Chico Buarque, lido por Urariano Mota; de Abusado, de Caco Barcellos, por Rodrigo Barreto. Cortesia do site (ah, Flor do Lácio!, devíamos dizer «sítio»?) Capitu

Intercâmbio cultural


Vale a pena, por causa das notas de rodapé. Do género: «Gabriel Alves: famoso locutor esportivo.» Edição brasileira na Ediouro.

Budapeste


Extracto de Budapeste, de Chico Buarque, o prémio recebido em silêncio:
«Fui dar em Budapeste graças a um pouso imprevisto, quando voava de Istambul a Frankfurt, com conexão para o Rio. A companhia ofereceu pernoite num hotel do aeroporto, e só de manhã nos informariam que o problema técnico, responsável por aquela escala, fora na verdade uma denúncia anônima de bomba a bordo. No entanto, espiando por alto o telejornal da meia-noite, eu já me intrigara ao reconhecer o avião da companhia alemã parado na pista do aeroporto local. Aumentei o volume, mas a locução era em húngaro, única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita. Apaguei a tevê, no Rio eram sete da noite, boa hora para telefonar para casa; atendeu a secretária eletrônica, não deixei recado, nem faria sentido dizer: oi, querida, sou eu, estou em Budapeste, deu um bode no avião, um beijo. Eu deveria estar com sono, mas não estava, então enchi a banheira, espalhei uns sais de banho na água morna e me distraí um tempo amontoando espumas. Estava nisso quando, zil, tocaram a campainha, eu ainda me lembrava que campainha em turco é zil. Enrolado na toalha, atendi à porta e topei um velho com uniforme do hotel, uma gilete descartável na mão. Tinha errado de porta, e ao me ver emitiu um ô gutural, como o de um surdo-mudo. Voltei ao banho, depois achei esquisito hotel de luxo empregar um surdo-mudo como mensageiro. Mas fiquei com o zil na cabeça, é uma boa palavra, zil, muito melhor que campainha. Eu logo a esqueceria, como esquecera os haicais decorados no Japão, os provérbios árabes, o Otchi Tchiornie que cantava em russo, de cada país eu levo assim uma graça, um suvenir volátil. Tenho esse ouvido infantil que pega e larga as línguas com facilidade, se perseverasse poderia aprender o grego, o coreano, até o vasconço. Mas o húngaro, nunca sonhara aprender.»

Os outros romances de Chico Buarque: Benjamim e Estorvo, publicados no Brasil pela Companhia das Letras; em Portugal pela Dom Quixote. Está ainda publicado, pela Companhia das Letras, Chico Buarque: Letra e Música (Vol. 1), reunião das suas canções.

Jabuti: os prémios máximos

Via Folha de São Paulo:

«Chico Buarque e Caco Barcelos são os vencedores do prêmio máximo do Jabuti. A Câmara Brasileira do Livro (CBL) anunciou, na noite de ontem, os dois vencedores das principais categorias do Jabuti, em cerimônia realizada no Memorial da América Latina, em SP.
O livro-reportagem Abusado, de Barcelos, e o romance Budapeste, de Chico, foram eleitos Livro do Ano-Não Ficção e Livro do Ano-Ficção, respectivamente. O anúncio de Barcelos como vencedor foi muito aplaudida. A vitória de Budapeste, ao contrário, foi recebida com silêncio. O livro de Chico não constava da lista de vencedores já conhecida até então, tendo recebido anteriormente menção honrosa como romance.»

Causa estranheza, de facto, esta atribuição do prémio a Budapeste.

Bernardo Carvalho



Além de repetir o Jabuti, este ano, Mongólia, de Bernardo Carvalho recebeu já a distinção de melhor livro pela Associação Paulista de Críticos de Arte e disputa (ver post mais abaixo) o prémio Portugal Telecom Brasil 2004.
Extracto de Mongólia:
«Foi chamado de Ocidental por nômades que não conseguiam dizer o seu nome quando viajou pelos confins da Mongólia. Fazia tempo que eu não ouvia falar dele, até ler a reportagem no jornal. Voltou da China há cinco anos e largou a carreira diplomática. Sua volta intempestiva coincidiu com a eclosão da crise da pneumonia atípica na Ásia, o que pode ter servido de explicação para alguns, mas não para mim. O jornal diz que ele morreu num tiroteio entre a polícia e uma quadrilha de seqüestradores, quando ia pagar o resgate do filho menor no morro do Pavãozinho. Pela idade do garoto, só pode ser o que nasceu em Xangai, logo antes de voltarem para o Brasil, quando ele decidiu mudar de vida sem dar satisfações a ninguém. Ao que parece, também saiu de casa em sigilo, terça-feira de manhã, para pagar o resgate. Não avisou ninguém, muito menos a polícia. Seguiu à risca as ordens dos seqüestradores. Os policiais o seguiram assim mesmo, sem que ele percebesse. O menino foi salvo, mas ele morreu no local. Tinha quarenta e dois anos. Ninguém vai ser responsabilizado, é claro. A polícia alega que ele foi imprudente. Liguei para um diplomata do Itamaraty que vive em Varsóvia e que o conhecia desde pequeno. Eram amigos de infância. Estava muito abalado. Decidira pegar o primeiro avião para o Brasil, que partia de Frankfurt naquela mesma noite. Estava de saída para o aeroporto. Não tinha tempo para falar comigo. [...] A literatura já não tem importância. Bastaria começar a escrever. Ninguém vai prestar atenção no que eu faço. Já não tenho nenhuma desculpa para a mais simples e evidente falta de vontade e de talento. O fato é que a notícia da sua morte me deixou ainda mais prostrado. Foi uma razão a mais para não sair. Não sou um homem especialmente corajoso, e os anos foram me deixando cada vez menos. Em princípio, ele também não era de correr riscos. Mas, ao contrário do que acontecia comigo, a impaciência e o destino o impeliam irremediavelmente na direção do perigo. Foi pensando nisso que, de repente, lembrei que ainda deviam estar comigo as coisas que ele tinha deixado na embaixada de Pequim antes de voltar para Xangai e retomar as funções de vice-cônsul, não por muito tempo.»


Bernardo nasceu no Rio de Janeiro, em 1960 e vive em São Paulo. Foi correspondente da Folha de São Paulo em Paris e Nova York e escreve actualmente para o mesmo jornal. Outros livros de Bernardo Carvalho: Aberração, Onze, Os Bêbados e os Sonâmbulos, Teatro, As Iniciais, Nove Noites.

Jabuti

Os Prémios Jabuti de 2004 foram hoje entregues, em São Paulo, no Memorial da América Latina (e ontem, no Rio, foi entregue o Camões, a Agustina Bessa-Luís). Destaque para Bernardo Carvalho, Mongólia (categoria Romance, edição portuguesa Cotovia); Sérgio Sant'anna, O Vôo da Madrugada (categoria Contos, edição portuguesa Cotovia), Alexei Bueno, Poesia Reunida (categoria Poesia), Caco Barcellos, Abusado (categoria Reportagem e Biografia).
No caso da ficção, Bernardo Carvalho repete o Jabuti -- na lista estiveram nomes como Luiz Antônio Assis Brasil (A Margem Imóvel do Rio), Chico Buarque (Budapeste), que ficaram, respectivamente, em segundo e em terceiro lugar.