novembro 06, 2007

Ouro Preto, 1
















Poemas de Tomás António Gonzaga, as ruas onde passou parte da melhor história de Portugal no Brasil. Havia uma poeira fina, amarelada. Essa não foi a primeira imagem mas foi a mais intensa, aquela que perdurou. A primeira foi a do desenho de um vale escuro, denso, sitiado pelo pico do Itacolomi e pela Serra da Mantiqueira, pelos fios de água do Rio das Velhas e do Piracicaba, mergulhado naquela vaga de calor onde cada pedra fala da história e do passado. É impossível não ceder ao peso da história; casarões erguidos em colinas, em ladeiras e becos, pracetas onde ipês frondosos servem de testemunhas à passagem do tempo. Mas a outra imagem, a imagem decisiva, apareceu depois: uma poeira fina misturada às nuvens de calor que subiam e desciam o vale. Foi mais do que isso que levou D. Pedro a chamar-lhe Imperial Cidade de Ouro Preto, substituindo o nome antigo, Vila Rica – o desígnio da história, o centro difusor do independentismo brasileiro que alimentou a Inconfidência Mineira e a conspiração do Tiradentes, a importância económica da região, a tradição de uma cidade que foi capital do barroco brasileiro. De alguma maneira, tanto Gonzaga como Cláudio Manuel da Costa fizeram o melhor da poesia pós-barroca, só comparável em génio ao atormentado e revolucionário Boca do Inferno, o “genial canalha” Gregório de Matos, o escandaloso poeta baiano do século XVI.
Ouro Preto lembra a história das cidades abandonadas por algum mistério do tempo. Há aqui o perfume da maldição e do castigo por, nesses tempos de glória, a riqueza dos seus habitantes ter levado a cobrir varandas e fachadas com folha de ouro. Isolada do mundo, escondida no vale, Ouro Preto fomentou aquela luxúria da decadência e foi um centro produtor de música, de pintura, de escultura, de literatura – e de contemplação, a mãe de todos os vícios artísticos.
Ao crepúsculo, Ouro Preto recebe os seus fantasmas, um a um. Eis a contemplação como um dos elementos da luxúria; não é por acaso: ao observar o vale desaparecendo sob a escuridão, percebe-se por que razão há cidades brasileiras a viver tanto o passado e os seus mistérios.

outubro 22, 2007

Rio de Janeiro violento: Os Insones












Samora é negro, mora no Leblon e quer mudar o mundo. Sofia é branca, mora em Ipanema e está desaparecida. Seu irmão Felipe coleciona armas escondido dos pais. Mara Maluca é meio mulata, meio índia, mora na favela e é capaz de atrocidades inenarráveis. Chayene pinta as unhas de vermelho e negro e quer ser atriz. São todos muito jovens. É esta a matéria de Os Insones, romance de Tonny Bellotto publicado pela Companhia das Letras. Começa assim:
«No futuro ele vai invadir a cidade. Por enquanto é só paisagem: mar, mar, mar. Do outro lado, pensou, a África. Olhou em torno, o quarto era pequeno. Colchão, mesa, duas cadeiras, livros e CDs espalhados, CD-player, mochila, garrafinhas d'água e uma janela. Lá fora gente falando, rádio ligado, cachorro latindo e o esgoto aberto. Como se a África estivesse ali mesmo. Uma velha subia os degraus acompanhada de um garotinho preto. Luger cromada enfiada dentro da bermuda vermelha, o garoto percebeu que era observado.»

maio 07, 2007

Cony reeditado

Carlos Heitor Cony vê reeditado Pessach, a Travessia, originalmente publicado em 1967 -- o seu livro mais próximo do fascínio judaico. Extracto pode ser lido aqui. Edição Alfaguara/Objetiva.

Angola no Brasil













De Ruy Duarte de Carvalho acaba de sair (edição Companhia das Letras) Os Papéis do Inglês (edição portuguesa na Cotovia).

abril 14, 2007

O biógrafo.

Fernando Morais é o biógrafo de Olga Benário e de Assis Chateaubriand. Agora, antes de se lançar em dois livros oh-la-la (um sobre o seu amigo e ex-dirigente do PT, José Dirceu, e outro sobre o seu amigo Paulo Coelho, uma biografia bem volumosa), publica Montenegro, as Aventuras do Marechal que Fez uma Revolução nos Céus do Brasil. Uma história prodigiosa. Entrevista do autor à Época.

Olha!












Olha o novo livro de Paulo Coelho! Chama-se A Bruxa de Portobello (edição Planeta). A protagonista chama-se Athena e é filha adoptiva de uma libanesa. Em Londres decide investigar por que razão a sua mãe biológica, uma cigana, decidiu abandoná-la.

Top.

Livros mais vendidos segundo a contabilidade da Folha de São Paulo.

As mulheres, ah, as mulheres.












Aí está um romance sobre o mundo em que as mulheres inverteram já totalmente os papéis no jogo do sexo. Ubiratan Marruek e A Corrida do Membro (edição Objetiva). É o romance que estou a ler. Veja mais aqui.

Marcelo Rubens Paiva, dois livros.












Não És Tu, Brasil, é uma história sobre o Brasil da ditadura e o momento em que os torturadores foram deixados à solta:
Em 1970, o cerco aos guerrilheiros da VPR — Vanguarda Popular Revolucionária, organização de guerrilha comandada pelo ex-capitão Carlos Lamarca —, no Vale do Ribeira, levou os militares a repensarem a guerra contra-revolucionária. O episódio conhecido como “A Guerrilha do Vale do Ribeira” impôs uma surpreendente derrota aos mais de mil e quinhentos homens das Forças Armadas que perseguiam cinco guerrilheiros, entre eles Lamarca. Mais aqui.
Quando a Blecaute, é uma reedição (revista, verdadeiramente) de um romance dos finais dos anos oitenta, agora disponível de novo.

Para quem pode, não perca as saborosas crónicas de Marcelo no Estado de São Paulo.

Estudos literários. Sterne, o grande mestre.











Aí está Riso e Melancolia. A Forma Shandiana em Sterne, Diderot, Xavier de Maistre, Almeida Garret e Machado de Assis (edição da Companhia das Letras):
«Nas primeiras linhas de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, o narrador avisa que adotou uma forma semelhante à de Sterne e Xavier de Maistre e que escreveu seu livro com a pena da galhofa e a tinta da melancolia. Diz ainda que em vez de começar a história a partir do início, preferiu contar primeiro o fim. No prólogo da terceira edição da obra, Machado adiciona o nome de Almeida Garrett aos dos inspiradores daquela forma "difusa e livre" - todos eles viajantes, observa. Para Rouanet, os elementos enumerados por Machado bastam para definir uma forma, que denominou "forma shandiana" - termo derivado do Tristram Shandy, de Sterne -, e cujas características estruturais são: hipertrofia da subjetividade; digressividade e fragmentação; tratamento especial dado ao tempo e ao espaço; e interpenetração de riso e melancolia. Os adeptos dessa forma, continua Rouanet, formam uma linhagem - e acrescenta um autor à lista elaborada por Machado: Diderot. Em Riso e melancolia, Rouanet estuda o funcionamento da forma shandiana em todos os autores que a cultivaram, abrindo o caminho para um melhor conhecimento tanto do nosso maior romancista como da linhagem intelectual a que ele se filiou. Com sua linguagem clara e atraente, seu humor e sua erudição, oferece novas percepções aos leitores e abre outras portas para a leitura dos herdeiros de Laurence Sterne.»

Tirania do corpo.











Eu tinha avisado: há uma tirania do corpo. Juliana de Vilhena Novaes acaba de publicar O Intolerável Peso da Feiúra. Depois de anos e anos consagrados a estabelecer um padrão absoluto de beleza, eis que o sofrimento acaba em tragédia. O livro é o essencial da tese de Juliana, defendida na PUC do Rio de Janeiro. A edição é da Garamond.
Escreve, no prefácio, Ricardo Ribeiralves de Castro, professor da UERJ: «A perfeição idealizada encontra na realidade sempre alguma imperfeição que, segundo a autora, obrigarão o sujeito à submissão de uma bateria de esforços absolutamente insanos e cruéis, em busca de um modelo inalcançável.» Durante dez anos, Juliana recolheu depoimentos de mulheres massacradas pelo ideal de beleza e pelo medo da exclusão: «Nas academias de malhação, nas ante-salas das clínicas de cirurgia plástica, ou nos grupos de pacientes à espera de gastroplastia redutora, há o consenso: “só é feia quem quer”. E quem não quiser se enquadrar nos atuais cânones de beleza sofrerá o merecido castigo da rejeição e da exclusão.»

Bienal do Livro de Salvador. 1








Bienal do Livro de Salvador: durante quase duas horas, Moacyr Scliar fala do seu novo livro, O Texto, ou: a Vida (edição Bertrand Brasil), quase uma antologia, quase uma recolha de memórias. Mas não é do novo livro que ele fala, é das histórias de infância, do mundo da adolescência. Durante quase duas horas, Scliar convoca os demónios da literatura (ele que escreveu 75 livros) e da autobiografia para honrar a obsessão pela ficção, pelos personagens e pelo seu mundo do Bonfim. Nesse tempo, ele contou como era a primeira biblioteca, como era a sua primeira autobiografia, como é o seu tempo nos aeroportos, como era a vida dos emigrantes do Leste europeu no Brasil, como Verissimo não leu o seu primeiro conto.

fevereiro 19, 2007

Top

Este é o top dos livros mais vendidos no Brasil, segundo a Folha de São Paulo.

Amyr Klink

Saiba mais sobre a paixão deste brasileiro que navegou por todos os mares por causa da literatura. Para quem viu, no GNT, o documentário sobre as suas viagens, vale a pena ler Parati, Entre Dois Pólos e Mar sem Fim. Mas na Bravo! deste mês, um retrato de Klink enquanto leitor (disponíveis os links para ouvir a entrevista), «Sobre Barcos e Letras».

Jean Charles

Como morreu Jean Charles? A Objetiva lançará em Junho um livro de Ivan Sant'Anna sobre a morte do brasileiro no metro de Londres, adiantando (vem na revista Veja) que «Jean tinha os braços imobilizados ao ser morto com sete tiros na cabeça por agentes da unidade armada da Scotland Yard». O título do livro é Em Nome de sua Majestade.

GLS










Edição da Gryphus: Entenda as Entendidas, ou seja, segundo Cariê Lindenberg, como são, como vivem as entendidas. Um retrato do mundo da homossexualidade feminina.

Moacyr bíblico, uma retoma










O romance é admirável e divertido, A Mulher que Escreveu a Bíblia -- era a mais feia das mulheres do rei Salomão. Scliar retoma a tese de Harold Bloom. O livro em reedição na Companhia de Bolso.

20 anos

Por falar em Companhia das Letras vale a pena visitar o site que assinala os 20 anos de existência da editora. Uma história invejável.

Celso Furtado










É um clássico, o que não significa que esteja «actualizado» ou que -- oh, deuses! -- «a realidade não o tenha entretanto desmentido». Seja como for, aqui está a novíssima edição de Celso Furtado, Formação econômica do Brasil. Edição da Companhia das Letras.










E outra novidade no catálogo da Companhia: a reedição de um clássico de Darcy Ribeiro, As Américas e a Civilização.

Retomar um blog









Nem sempre é fácil retomar um blog. O Gávea é um projecto pessoal de informação sobre livros publicados no Brasil e, durante algum tempo, foi pioneiro. Nessa altura eu vivia no Brasil e o acesso à informação era mais fácil e mais rápido. Com o tempo, outros projectos e outras ocupações sobrepuseram-se. Regressa agora o Gávea, sem promessa de manutenção diária mas com a garantia de uma actualização pelo menos semanal. Nada mau.